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Península
de Itapagipe |
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Itapagipe |
| E
como uma cidade dentro da cidade de Salvador. Ele tem
vida própria, guarda ainda o velho costume da
prosa de vizinhos no fim da tarde, tem pontos turísticos
que fazem a Bahia famosa no mundo inteiro e festejos
que mexem com todo tipo de devoção. Por
pouco Salvador não nasceu naquela região,
bem no canto da Baía de Todos os Santos. Foi,
apenas, por uma questão de estratégia
de defesa que os colonizadores preferiram construir
uma cidade fortaleza aproveitando a muralha natural
da geografia, mas motivos não faltavam. Quais
os segredos que guarda esse lugar que faz com que pessoas
viagem de um extremo ao outro da cidade só para
provar algumas das delícias de lá? Será
que são as delícias do bairro ou as festas
que mexem com Itapagipe? Boa parte da memória
de Salvador está nesta península. Desde
a fortaleza dos primeiros tempos aos casarões
das ricas famílias que ajudaram a construir a
história do lugar. A igreja mais famosa de Salvador.
Tudo isso está lá.
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Da
colonização a Revitalização
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Quem
vive em Itapagipe há muito tempo tem laços
com o lugar que ultrapassam os limites da boa vizinhança.
Quem passa por aqui às vezes tem uma sensação
incomum de tranqüilidade. Fabrício Santana,
estudante, costuma passear na região e diz não
correr o risco de ser assaltado. Algumas artesãs
moram em Itapagipe só há dois anos e já
acham que vai passar o resto da vida no lugar.
A
diversão à beira-mar, a vida sem pressa
e uma orla de onde se admira um pôr-do-sol que
raramente decepciona, fazem da península de Itapagipe
um bairro da capital com ar de cidadezinha pacata.
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Trabalho
é que não há para todo mundo. Muitas
fábricas se mudaram, outras fecharam as portas.
Nos últimos dez anos, várias lojas faliram.
O comércio do bairro da Calçada ainda
é o que há de mais forte na região,
mas os empresários reivindicam mais investimentos
em infra-estrutura e incentivo aos negócios.
Até
quem tira o sustento do mar, rema contra a maré
hoje em dia. A pouca quantidade de mariscos fez diminuir
o número de marisqueiras, o que faz os pescadores
também se queixarem. A pesca com bomba mata os
peixes em
quantidade, atormenta os pescadores tradicionais e põe
em risco a vida dos próprios bombistas. Na década
de 80, uma família inteira morreu na região
por causa de uma explosão acidental.
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Economia
local |
Das
casas que famílias da alta sociedade construíram
para morar ou passar temporadas em Itapagipe, praticamente
só restam ruínas. O lugar que já
foi um dos mais charmosos e promissores de Salvador,
apresenta
marcas de degradação. Com tanta riqueza
cultural, com tanto sol, com tanto mar, o turismo se
tornou a solução imediata para a revitalização
da península.
Em 2002, a prefeitura de Salvador e o Governo do Estado
concluíram o terminal marítimo da Ponta
de Humaitá, o primeiro dos três previstos
para Itapagipe, dentro do projeto via náutica:
um percurso marítimo previsto para ligar nove
pontos entre a praia da Penha, na Ribeira, e o Porto
da Barra.
De acordo com o projeto, o principal terminal deve funcionar
no porto de Salvador. Por ser uma área pertencente
ao Governo Federal, a prefeitura passou os últimos
quatro anos negociando com a administração
do porto a cessão do espaço necessário.
Ainda não se sabe quando novos terminais serão
construídos, mas a possibilidade de retomada
das obras ganhou alguma força no começo
deste ano com a assinatura de um protocolo de intenções
entre prefeitura, diretoria do porto, Governo do Estado
e Associação Comercial da Bahia. |
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Revitalização |
| Lídia
Santana, coordenadora do projeto Via Náutica,
está convicta de que os moradores de Itapagipe
e de outros locais, onde serão construídos
os terminais, só têm a ganhar com a conclusão
das obras.
A Ponta de Humaitá é uma aposta no turismo
náutico para incentivar o turismo histórico.
A igreja de Monte Serrat, do século 16, foi restaurada
em 2001 pelo
Governo do Estado. A segunda etapa, com a recuperação
de bens móveis e artísticos já
está em andamento. Na cúpula da igreja,
os restauradores
descobriram uma pintura renascentista que estava coberta
por várias camadas de tinta. |
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As
iniciativas particulares de revitalização
ainda são tímidas. Existe um projeto para
transformar o velho hidroporto da Ribeira numa marina.
O artista plástico, Luís Mário,
usou o galpão de uma antiga indústria
de beneficiamento de cacau para provar como um espaço
abandonado pode ser reaproveitado. Luís Mário
comprou o imóvel e resolveu fazer do lugar a
casa dele. Montou e decorou tudo ao seu modo: banheiros,
quartos. Luís nasceu e viveu em Itapagipe até
os 23 anos. Depois de morar em outros bairros durante
20 anos, voltou para a península em 1999. |
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História |
A
geografia define Itapagipe como uma península.
A história conta que esta ponta de terra que
avança para a Baía de Todos os Santos,
chegou a ser cogitada para lugar da fundação
de Salvador. Os portugueses preferiram a cidade alta,
com medo dos ataques pelo mar. Tanto que começaram
a construir em Itapagipe, ainda no século 16,
o forte de Monte Serrat. O forte foi tomado nas invasões
holandesas de 1624 e 1638.
A arquiteta Mariely Santana, que pesquisou a história
da ocupação de Itapagipe para sua tese
de mestrado, conta que no começo havia uma aldeia
indígena na península. No século
16, os portugueses instalaram pequenos estaleiros na
orla voltada para o recôncavo. Foi vila de pescadores
no século 17 e recebeu grandes grupos e ordens
religiosas no século 18. Na época, não
era fácil chegar a Itapagipe.
Segundo Mariely, os relatos dos viajantes do século
dezoito e até início do século
dezenove falam de viagens de até um dia, era
muito difícil o acesso.
Para a arquiteta, o primeiro boom de desenvolvimento
da Itapagipe, se deu com a chegada da devoção
do Senhor do Bonfim, em 1745. O capitão de mar
e guerra, Theodósio de Faria, foi quem deu início
ao culto de Senhor do Bonfim na Bahia. O capitão
trouxe a imagem de Portugal, fundou a irmandade e comandou
a construção da capela. Até que
a obra fosse concluída, em 1754, as imagens do
Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Guia ficaram
na igreja da Penha, na Ribeira. |
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A
basílica do Bonfim se tornou a igreja mais popular
da Bahia, mas a primeira de Itapagipe foi a de Monte
Serrat, construída no século 16 e reformada
pelos Beneditinos no século 17. A igreja da boa
viagem foi erguida em 1712 e modificada em 1908. A da
Penha é de 1742. A igreja dos Mares já
é do século 20, tem enormes vitrais e
seu estilo é neo-gótico, diferente dos
de outras igrejas da península. A característica
de lugar religioso e de veraneio,
desde cedo atraiu famílias ricas para Itapagipe.
O atual abrigo Dom Pedro II foi, talvez, a maior casa
de residência que existiu na Bahia. O Solar Marback,
construído na primeira metade do século
19, na mudança do Brasil Colônia para o
Brasil Império, tem 1700 m2 de área construída
e 19 cômodos. O dos escravos ficava embaixo. O
prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. O solar
pertence à família Marback há 149
anos. Ainda tem móveis do século 19 e
do começo do século 20, mas os herdeiros
venderam a maior parte do acervo. Agora é a casa
que está à venda. Ana Amélia Marback
diz que não tem condições de manter
o solar, por isso, ela e o irmão resolveram se
desfazer do imóvel. |
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Francisco
Amado Bahia, um dos maiores pecuaristas que o estado
já teve, mandou construir na Ribeira um solar
com estrutura de tijolo envolvido por ferro fundido
trazido da Europa. A casa pertence à Associação
dos Empregados no Comércio, que não sabe
o que fazer dela. Quem vê o solar fechado não
imagina que a decoração, do início
do século 20, ainda é a original. Os materiais
de acabamento são todos importados. A casa chegou
a ter 52 cômodos. Cada um dos que ficam nos pavimentos,
antes ocupados pela família, foi decorado de
uma forma diferente. Tem até uma capela com sala
de oração, altar neo-clássico e
pinturas no teto.
Outro
período de intensa ocupação de
Itapagipe aconteceu no fim do século 19. Graças
a Luís Tarquínio, fundador da companhia
Empório Industrial do Norte, símbolo da
primeira fase de industrialização da Bahia.
Filho de uma lavadeira e descendente de escravos, Luís
Tarquínio fez fortuna a custo de muito trabalho.
Na fábrica construída por ele, parte dos
lucros era distribuído aos mais de mil operários.
Em frente à fábrica, Luís Tarquínio
mandou construir uma vila operária, com 258 casas.
Os funcionários tinham água e luz pagos
pela empresa e ainda uma escola e creche para os filhos.
Tarquínio morreu em 1905, mas a fábrica
atravessou boa parte do século 20 seguindo seu
projeto social. Dona Iraci foi operária da companhia
Empório entre 49 e 56. Época em que a
vila onde mora ainda contava com os benefícios
criados pela fábrica. |
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A partir da
construção da companhia Empório,
a península se desenvolveu. Ganhou novas praças,
avenidas e ruas. Um hidroporto foi construído
na Ribeira nos anos 30. Itapagipe chegou a ter dois
cinemas. Um deles, o antigo Cine-Roma, que está
sendo transformado em igreja das Obras Sociais de Irmã
Dulce, perto do hospital que ela construiu para atender
a pacientes pobres.
Fábricas de tecidos, de cigarros, de chocolate,
de beneficiamento de cacau, quase todas hoje em ruínas,
se instalaram na península no século 20.
O imigrante italiano, Giuseppe Vita, construiu uma fábrica
de refrigerantes.
Passou a fabricar as garrafas quando teve dificuldade
de importá-las durante a primeira guerra mundial.
Partiu depois para os cristais. A Fratelli Vita ganhou
prestígio e dinheiro. Bancou o trio elétrico
de Dodô e Osmar, além patrocinou Marta
Rocha no concurso de Miss-Brasil. |
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Jário
Vita guarda peças raras produzidas pela empresa
do avô como as taças com brasão
da república encomendadas pela então primeira-dama
do Brasil, Sarah Kubitscheck. A empresa encerrou a produção
em 62. O sonho de Jário é reabrir a fábrica
e fazer cristais tão bons quanto os produzidos
na época do pai e do avô. A prova, segundo
ele, está no som que sai da taça, quando
se passa o dedo molhado na borda da peça. Os
cristais Fratelli Vita, para ele, não devem nada
aos famosos Bacarat. |
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Animação
do povo Itapagipano |
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